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Um corpo perdido nas mãos da música não é apenas um corpo, mas uma arma letal, que mira o coração do espectador e o fere de uma forma repentina e extremamente dolorosa, mas que faz a morte se arrastar como um animal fraco. Meu coração vai se entregando aos meus olhos e ao encanto que arde em sua superfície, e sinto minha mente presa às curvas do corpo nu dela, como se nunca tivesse registrado algo tão magnífico.
Ela gira nos calcanhares, as mãos unidas acima da cabeça, os seios empinados pelos braços erguidos, os cabelos ruivos desgrenhados caindo gentilmente nos ombros alvos. Sorvo um pouco de seu sorriso e a chamo para se aproximar com um gesto, sua mão agarrando a minha enquanto ela deixa seu corpo cair sobre mim, os joelhos nas laterais do meu. Ela é tão espantosamente linda mesmo apavorada que eu sinto a vontade desesperada de abraçá-la e cobrir cada milímetro de seu rosto perfeito com beijos, mas apenas encaro aqueles olhos dourados e a vejo se inclinar para beijar meus lábios com a leveza de um anjo.
Toco seus seios com carinho, olhando para o colo bonito, coberto de sardas claras e que sobe e desce com a respiração falsamente controlada. Sei bem que o medo a deixa excitada, conheço tudo na máquina perfeita que ela chama de corpo (e no qual ela encontra defeitos invisíveis, que a incomodam como demônios na consciência, e dos quais eu tento livrá-la para que possa ver o que eu vejo), sei que o sexo para ela é um escape delicioso.
Mas eu não avanço. Acaricio seus seios por alguns segundos, completamente absorta nas batidas do meu coração, que tal como uma bomba-relógio parece ficar mais evidente e gritar um pouco mais alto conforme o apito final se aproxima. Então, vendo que eu não me movo muito mais, ela se põe de pé e procura o maço de cigarros sobre a escrivaninha e vai acender um, apoiada no parapeito da janela.
A música ainda toca no computador, mais uma baladinha que ela escolheu antes de me trazer para si, fechar a porta do quarto e sorrir. Revejo, mentalmente, ela sorrir e pedir um segundo, correndo para o computador para aumentar um pouco o volume, voltando então até mim e beijando minha boca com vontade. Eu me perguntei então, como me perguntei cada vez que ela fez a mesma coisa, por que ela o fez. Não sei por que ela me segurou tão perto de si e desabotoou faminta o meu vestido, ou por que seus olhos marejavam tanto quanto ela deixou os lábios pousados na minha bochecha enquanto me abraçava. Sei que ela tem medo, mas medo ela não tinha quando me procurou nas outras vezes, e sempre houve lágrimas. Tentei, tantas e tantas vezes, tirar o pavor de dentro dela com beijos, com os dentes, com as mãos, mas ali, quando ela me prensava contra a parede, as mãos entrelaçadas com as minhas no alto, o corpo nu contra o meu, o temor continuava em sua respiração e nas suas batidas cardíacas. Até a forma como mordia meus ombros denunciava seu espírito inquieto. Ainda sinto seus anseios na minha pele como teias invisíveis, ainda ouço um pedido de ajuda no grito de prazer dela, vejo a angústia em seus olhos, na cama, esparramada, com o sexo ainda vivo. Ela se levantou e, desde então, a observo da ponta da cama, com a curiosidade e a compaixão de alguém que observa um animal lindo prestes a ser sacrificado.
Sinto o impulso de perguntar a ela como se sente, mas a conheço bem o suficiente para saber que ela não compartilha sentimentos. Ela apenas sorriria, com o cigarro preso entre os lábios, e faria uma pergunta de volta, mas nunca deixaria sua boca entregar os medos do coração.
Levanto da cama e caminho até o banheiro, lavo as mãos e o rosto e flagro minha amada me olhando pelo espelho, com um olhar subitamente triste. Olho diretamente pra ela, mas no tempo de eu girar nos calcanhares ela já voltou sua expressão para uma falsa tranquilidade, e isso me machuca por dentro como um belo gole de cacos de vidro. Sinto meu peito gritar cantos de amor, e mordo os lábios para não dizer nada.
Ela me abraça quando me aproximo, e por um segundo penso sentir um soluço vindo dela. Contudo, ela continua com o rosto escondido na curva do meu pescoço, uma das mãos brincando gentilmente com a minha trança. A música agora é um country qualquer, levemente triste, e me enche o corpo com uma angústia sem fim.
Ou é a proximidade do fim, do meu e do dela.
Ou os dois.
Ela levanta a cabeça e me encara e, pela primeira vez desde que entramos naquele quarto de hotel, ela deixa algumas lágrimas escorrerem pelo rosto. Seus olhos parecem querer me dizer algo, com um brilho que eu já vi tantas vezes e nunca tentei desvendar. Aquela expressão me incomoda e eu giro o seu corpo e abraço por trás, nos virando de frente para o grande espelho na parede. Vejo ela sorrir suavemente, e vejo meus próprios olhos. E então entendo que o silêncio nos condenará até o último instante, porque o que vi nos olhos dela é a mesma coisa que vejo agora enquanto olho para ela. Meu peito infla, minha respiração falha, e eu tenho a vontade desesperada de chorar. De frustração por não conseguir dizer, de angústia de não ouvi-la dizer.
Achei que o fim me traria coragem, ou ousadia talvez, de dizer enfim tudo. Amo-a, porra, como amo! Ao invés disso, as palavras parecem morrer na minha garganta e me odeio um pouco mais a cada engasgada, desvio os olhos da imagem dela no espelho e estremeço. Sinto um medo que não senti até agora, e provavelmente o maior medo que eu senti até hoje, acima do medo da morte.
Tenho medo de que ela nunca saiba que a amo.